quarta-feira, 7 de maio de 2008

SANGRAÇO



Já estou em prontidão
com as veias em fervura
o punhal na cintura
e o rifle na mão.

No peito, levo a valentia
na promessa, a salvação
vingança é minha valia
matança, a minha diversão.

A sanha é minha ternura
piedade é meu palavrão
a glória é a minha cura
o mal, a minha educação.

Acompanho o bando torvo
pelas sendas do sertão,
aterrorizando o povo,
despistando o pelotão.

Pilho perfumes e diamantes
prata, ouro e brilhantes
Em cada vila, uma amante
que deixo e sigo adiante.

Desmoralizo a justiça
que se estertora no chão
feito um lote de carniça
a feder, na renegação.

No cangaço a pedra geme
todo firmamento treme
com a tropelia do bando
que já chega anunciando
a morte, o medo, a maldição!

[j. guedes]

3 comentários:

pau-ferro disse...

Caro Sr. João Guedes,

O poema está bom em sua estrutura, cosendo rimas com significados muito fortes. Mas, ao propor em seu conteúdo o fenômeno histórico do cangaço, faltou comentar sobre a outra impressão que parte da sociedade tinha sobre o bando, vertendo ao mesmo uma veneração tão intensa, a ponto de identificar em suas ações a característica de justiceiro, numa época em que o sertão era uma terra distante da vigilância estatal, as regras que ali vigoravam eram determinadas de particular para particular.

Um Abraço.

joao p. guedes disse...

Caro Pau-Ferro,

Eu lhe agradeço sinceramente pela crítica declinada ao "corte" do conteúdo do fenômeno do Cangaço. Mas, com efeito, meu propósito nesse poema não foi criar uma dependência dos versos com a amplitude total dos aspectos relativos ao Cangaço. Meu intento, afinal, restringiu-se, com base no estilo literário denominado "realismo fantástico", à tentativa de insinuar um perfil que se confunde com o suposto narrador, marcado por um impulso de vandalismo; um pujante sentimento de fúria que move sedentamente o sujeito ao lado dos outros bandoleiros para a prática de pilhagens e pistolagens, atividades mais recorrentes dos bandos que existiram no âmbito do sertão, entre o final do séc. XIX e início do séc. XX. Além disso, impende-me lhe deixar às claras que parte da sociedade que admirava o cangaço tinha essa mesma inclinação emotiva de vingança, seja contra a polícia, vizinhança ou demais desavenças entre particulares; de modo a confiar aos atores do cangaço uma competência forjada para levar a cabo o desejo de justiça, o que é questionável, pois, nem sempre a justiça estava rigorosamente embutida nas atitudes dos cangaceiros. Então, no final das contas, o próprio narrador já representa essa parcela da sociedade que admirava os fazedios dos atores nesse cenário sombrio de nossa história, refletindo-se em nossa atualidade dentro de um contexto folclórico, mítico, cultural.

Esse é meu ponto de vista. Sinta-se à vontade para a tréplica.

Atenciosamente,
João p. Guedes.

Priscilla disse...

Sem demasiados comentários. Quero dizer apenas que gostei muito! E isso basta...